19.9.17

A.M.Pires Cabral (Erosão)





EROSÃO



Montes arredondados, de tão velhos,
que já destes pão e hoje dais cardos,

dizei qual erosão mais vos magoa:
se a que vos vem do alto
no uivo dos ventos e nas cordas de chuva

- se a do desuso agrário.



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

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18.9.17

Mariano Crespo (Proibido e nublado)





PROHIBIDO Y NUBLADO



Si pensáramos los días impares.
Si amáramos los días de sol.
Si fuéramos invisibles los jueves.
Si estuviera prohibido morirse con lluvia.

Todo sería tan previsible y tan imprevisto
como el temblor de tu sexo
para mi sismógrafo.

Y añado: alguien te comería
a besos, como yo pretendo ahora,
aunque esté prohibido y nublado.

No estamos hechos, amor mío,
para lo que con nosotros están haciendo.

Mariano Crespo Martínez





Se pensássemos nos dias ímpares,
se amássemos nos dias de sol,
se fôssemos invisíveis às quintas,
se fosse proibido morrer com chuva.

Tudo seria tão previsível e tão imprevisto
como o tremor do teu sexo
para o meu sismógrafo.

E acrescento, alguém te comeria
com beijos, como eu agora pretendo,
apesar de proibido e haver nuvens.

Não somos feitos, amor meu,
para o que estão a fazer connosco.

(Trad. A.M.)


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17.9.17

María Sanz (Vento)





  AIRE  



A pesar de que el mar y la tristeza
no acaban de llevarse el día, sueño
con otra orilla prístina, lejana,
donde las aguas mecen partituras.
Una suite para olas,
olas de Bach,
que vienen y se alejan,
y vienen otra vez, constancia mística
junto a lo que no acaban de llevarse,
oh música azulada,
el mar y la tristeza.


María Sanz






Nunca mais acabam de levar o dia,
o mar e a tristeza, mas eu sonho
com outra beira pristina, longínqua,
onde as águas embalam partituras.
Uma suite para ondas,
ondas de Bach,
que vêm e se afastam,
e vêm de novo, constância mística
do que nunca mais acabam de levar,
ó música azulada,
o mar e a tristeza.



(Trad. A.M.)

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16.9.17

Mário de Carvalho (Hospital)





Tiraram-lhe finalmente o gesso na consulta em Lisboa, e um médico mal-encarado fez-lhe doer, rabiscou uma receita enfadada e ordenou-lhe, ríspido, que voltasse ao hospital daí a um mês.

Gustavo quis saber se ficaria a coxear; "logo se veria".

Esperara horas pela consulta, a ver desfilar uma mostra das misérias de Lisboa, entre ruidosas famílias ciganas, velhotas lisboetas que parlapiavam compulsivamente e jovens de olhar esquivo que premiam teclas de telemóvel, num alvoroço de ruídos electrónicos.


Marta ficara de recolhê-lo mais tarde, à porta do hospital, e acabar por vir fazer-lhe companhia na sala apinhada, com aspecto de apeadeiro de autocarros, de assentos de plástico vermelho costas-contra-costas, dominada por um televisor numa peanha de plástico, saturado de cores, sempre ligado no canal de televisão mais rasteiro.


MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-X
(2008)

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15.9.17

María Laura Decésare (Puro-sangue)





PURASANGRE



Como un caballo de carga
que debe ir hacia delante
sin descanso, sin parar,
así me siento hoy.
Con el peso sobre el lomo
es imposible rebelarse
pero el amo exige más.
Escucho el sonido del viento,
me dice al oído: libertad.

María Laura Decésare




Como um cavalo de carga
que tem de ir sempre em frente
sem parar, sem descanso,
assim hoje me sinto.
Com o peso no lombo
impossível rebelar-se
mas o dono exige mais.
E eu escuto o som do vento,
a dizer-me no ouvido: liberdade.


(Trad. A.M.)

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14.9.17

María Belén Aguirre (Lapsus)





LAPSUS



Antes de caer en completa senilidad
él me dijo:

Francesa:
Llevame a pasear a la plaza Independencia.
Quiero mostrarte el lugar
donde fue la redada.

Sentados en un banco
señaló:

Ahí, donde están las palomas.

Luego ordenó:

Anotá

Ave
Pico
Jaula

Hacé algo con eso.

Escribí:

Ave
usa tu pico
para romper la jaula
y huye.

Pero él había retrocedido varios años.

María Belén Aguirre




Antes de ficar totalmente senil,
ele disse para mim:

Francesa,
leva-me à Praça da Independência, a passear,
quero mostrar-te o lugar
onde foi a rusga.

Sentados num banco
apontou:

Ali, onde estão as pombas.

Depois ordenou:

Aponta

Ave
Bico
Jaula

Faz alguma coisa com isso.

E eu escrevi:

Ave
usa o teu bico
para partir a jaula
e foge.

Mas ele tinha já retrocedido vários anos.


(Trad. A.M.)

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13.9.17

Alberto Pimenta (A lixeira cultural)





A LIXEIRA CULTURAL



Contribuo
com o que posso
para
a lixeira cultural

não é muito. eu sei
outros dão muito mais
eu não passo de um amador
enfim

o importante
é cada um dar o seu melhor
como dizem os irresponsáveis.


Alberto Pimenta

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