21.4.18

Agustina Bessa-Luís (A Régua)





(Régua)


A Régua, em 1840, era um pouco St. Louis do Missouri, só que com menos europeus.

Havia ingleses, é certo; mas para cá da Mancha um inglês sofre uma rebaixa de cinquenta por cento.

Para chegar onde quero chegar direi que em 1845, nos altos de Baião e num lugar chamado Santa Cruz do Douro, vivia um desses morgados bizarros, que cumprem o seu destino seduzindo uma costureira, casando com uma prima e endividando-se quase sem sair de casa – a comer e a administrar mal as terras. (I)



AGUSTINA BESSA-LUÍS
Fanny Owen
(1979)
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20.4.18

Pablo Neruda (Em ti a terra)





EN TI LA TIERRA



Pequeña rosa, rosa pequeña,
a veces,
diminuta y desnuda,
parece que en una mano mía cabes,
que así voy a cercarte y a llevarte a mi boca,
pero de pronto
mis pies tocan tus pies y mi boca tus labios,
has crecido
suben tus hombros como dos colinas,
tus pechos se pasean por mi pecho,
mi brazo alcanza apenas a rodear la delgada
línea de luna nueva que tiene tu cintura:
en el amor como agua de mar te has desatado:
mido apenas los ojos más extensos del cielo
y me inclino a tu boca para besar la tierra.


Pablo Neruda




Pequena rosa, rosa pequena,
às vezes,
diminuta e desnuda,
parece que me cabes na mão
e que te chego e levo à boca,
mas de repente
meus pés tocam os teus
e minha boca teus lábios,
cresceste
sobem teus ombros como duas colinas,
teus peitos passeiam por meu peito,
e meu braço mal consegue abarcar a linha
delgada de lua nova que tem a tua cintura.
No amor te derramas como água de mar,
enquanto eu, mal medindo os olhos mais extensos do céu,
debruço-me em tua boca para beijar a terra.

(Trad. A.M.)
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19.4.18

Oscar Hahn (Hipótese celeste)






HIPÓTESIS CELESTE


I

Las catedrales azules del cielo esplenden en la noche
sin fin
y sus vitrales de colores dejan pasar la luz de otros
mundos

Tu locura mi cielo brilla en la noche estelar

De tu frente sin orden
se alza un arco iris que acaba en mi frente

Mi doncella de singular hermosura
duerme a la orilla de un arroyo celeste

Recostado en la hierba espacial
yace un joven de risueñas formas y colores

Su figura de ojos instantáneos
se eleva sin mancha a plena luz

Y convertido en lluvia de oro
dora el cuerpo de la hermosa doncella
   (...)


Oscar Hahn




As catedrais azuis do céu resplandecem na noite
sem fim
e seus vitrais coloridos filtram a luz
de outros mundos

Tua loucura meu bem brilha na noite estrelada

De tua fronte se ergue
um arco-íris que acaba na minha fronte

Minha donzela de beleza singular
dorme na margem de um regato celeste

Deitado na erva do espaço
está um jovem de risonhas formas e cores

Sua figura de olhos inquietos
ergue-se no dia em plena luz

E convertido em chuva de oiro
doura o corpo da bela donzela
   (...)

(Trad. A.M.)
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18.4.18

Eugénia de Vasconcellos (Claridade)






CLARIDADE



Como a madrugada
promete a claridade
nítida, orvalhada,
onde a noite se despe em luz
assim atravessa a rua
a voz nua da manhã
e toda a sombra recua
e toda a memória é vã.


Eugénia de Vasconcellos



>>  Cabeça de cão (blogue) / Escritores (bio)

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17.4.18

Oliverio Girondo (Crua dicotomia)





DICOTOMÍA INCRUENTA



Siempre llega mi mano
más tarde que otra mano que se mezcla a la mía
y forman una mano.

Cuando voy a sentarme
advierto que mi cuerpo
se sienta en otro cuerpo que acaba de sentarse
adonde yo me siento.

Y en el preciso instante
de entrar en una casa,
descubro que ya estaba
antes de haber llegado.

Por eso es muy posible que no asista a mi entierro,
y que mientras me rieguen de lugares comunes,
ya me encuentre en la tumba,
vestido de esqueleto,
bostezando los tópicos y los llantos fingidos.


Oliverio Girondo




Chega sempre minha mão
depois de outra mão a unir-se com a minha
formando uma só mão.

Dou conta quando me sento
que meu corpo se senta em outro corpo
sentado onde me sento.

E no preciso momento
de entrar em casa,
descubro que já lá estava
antes mesmo de entrar.

Por isso é bem possível que não assista ao meu enterro
e que enquanto me reguem de lugares comuns
eu me meta antes no caixão,
vestido de esqueleto,
bocejando com as trivialidades e prantos fingidos.


(Trad. A.M.)

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16.4.18

Jesús Aguado (O que vejo passar)





Lo que veo pasar me ve pasar
y por eso estoy vivo.
Lo que veo
detenido me ve quedarme quieto
y por eso no muero.
En mis ojos,
los ojos de los árboles y el río
se miran para ser y darme el ser.
No espejos sino luz.
No parentesco
o relación sino lo mismo.
No
el tiempo desplegándose despacio
para extender su red
sino la araña
devorando a la araña para hacerse
tan grande como el tiempo y devorarle.

Lo que veo pasar me deja ciego
y por eso estoy vivo.
Lo que veo
detenido me aparta de mis ojos
y por eso no muero.
!Sigo aquí!

Jesús Aguado



O que vejo passar vê-me passar a mim
e por isso estou vivo.
O que vejo detido
vê-me a mim ficar quieto
e por isso não morro.
Em meus olhos se miram
os olhos das árvores e o rio
para serem e me darem o ser.
Não espelhos, mas luz.
Não parentesco
ou relação mas o mesmo.
Não
o tempo desdobrando-se devagar
para estender sua rede
mas a aranha
a devorar a aranha para se fazer
tão grande como o tempo e devorá-lo.

O que vejo deixa-me cego
e por isso estou vivo.
O que vejo
detido aparta-me de meus olhos
e por isso não morro.
Continuo aqui!

(Trad. A.M.)


>>  A media voz (17p) / Las afinidades electivas (4p) / Escritores (nota)

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15.4.18

Vasco Graça Moura (Na praia lá do Guincho)

 





na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.

nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias.
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,

o vento traz de tudo
e antónio nobre e lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.

restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão.
que seria de nós, bucólicos, sem esses indicadores da alma? dou

lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios. antes
a nortada, os surfistas,
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.


Vasco Graça Moura


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